Setembro de 2016.
RIO - Uma serra que traz o pranto no nome chora veneno. Trazidos pela chuva, agrotóxicos contaminam os campos de altitude da Serra da Mantiqueira no Parque Nacional do Itatiaia, um dos lugares de natureza mais rara e espetacular do Brasil. Cientistas da UFRJ descobriram contaminação por endosulfan, um pesticida altamente tóxico e proibido no país desde 2014, mas capaz de permanecer por décadas no ambiente.
RIO - Uma serra que traz o pranto no nome chora veneno. Trazidos pela chuva, agrotóxicos contaminam os campos de altitude da Serra da Mantiqueira no Parque Nacional do Itatiaia, um dos lugares de natureza mais rara e espetacular do Brasil. Cientistas da UFRJ descobriram contaminação por endosulfan, um pesticida altamente tóxico e proibido no país desde 2014, mas capaz de permanecer por décadas no ambiente.
A Mantiqueira é a “serra que chora”. Alusão à lenda tupi sobre o pranto de uma índia de coração partido e à chuva copiosa que alimenta nascentes fundamentais para plantações e cidades de Rio, São Paulo e Minas Gerais.
O trabalho do grupo de Rodrigo Meire, do Laboratório de Radioisótopos Eduardo Penna Franca, do Instituto de Biofísica da UFRJ, revelou a contaminação dos campos de altitude do Itatiaia e também no Parque Nacional da Serra das Órgãos.
Além do endosulfan, os pesquisadores descobriram outros dois tipos de pesticidas, ambos com amplo uso no país: clorpirifós e cipermetrina.
Além do endosulfan, os pesquisadores descobriram outros dois tipos de pesticidas, ambos com amplo uso no país: clorpirifós e cipermetrina.
Semivoláteis, os venenos evaporam do solo e chegam às nuvens. Levados pelo vento, viajam para longe. Análises da circulação atmosférica feitas pela UFRJ indicaram que os agrotóxicos que ameaçam paraísos de biodiversidade vieram tanto do estado quanto de plantações do Centro-Sul do Brasil. Na era dos homens, o Antropoceno, parques nacionais e quaisquer outros mecanismos de proteção legal são inócuos para a poluição que viaja nas nuvens.
— Há fontes locais e remotas. A poluição não respeita distância e fronteira. Com isso, temos mais uma evidência de que os riscos dos agrotóxicos são ainda maiores do que se costuma imaginar — afirma Meire.
A descoberta em Itatiaia deixou os pesquisadores particularmente impressionados devido ao isolamento e à vulnerabilidade da região.
Os campos de altitude são conhecidos como ilhas do céu. No topo das montanhas, a altitude produz mundos isolados. A temperatura é mais baixa. E as chuvas, mais intensas. O ar, rarefeito. Nesses campos, o solo é raso, as rochas dominam e sobre elas cresce uma vegetação de arbustos e plantas menores, em que as flores de cores vivas e formas exuberantes são marca característica.
— Fomos investigar nos topos das montanhas justamente porque essas áreas são sentinelas do ambiente. Tudo acontece primeiro lá. Os agrotóxicos chegam com a chuva e se concentram com o clima frio. Eles afetam o solo e as nascentes. No topo das montanhas, a contaminação é maior do que nas áreas mais baixas — explica Meire.
ESPÉCIES AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO
O monitoramento feito pela equipe da UFRJ começou há quatro anos e já levou a uma tese de mestrado, realizada por Yago de Souza Guida, e à publicação de um estudo na revista científica “Chemosfere”.
Os campos de altitude e seus extremos de frio e umidade abrigam fauna e flora ricas. Só no Itatiaia há cerca de 500 espécies de plantas.
‘A poluição não respeita distância. Com isso, temos mais uma evidência de que os riscos dos agrotóxicos são ainda maiores do que se costuma imaginar’
- Rodrigo MeirePesquisador da UFRJ
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